A realidade não funciona de forma arbitrária. No entanto, as pessoas têm arbítrio para conceberem a visão da realidade que lhes aprouver.
Estes são os axiomas na tese que aqui apresento e os quais vamos retomar na conclusão da mesma.
Várias ideologias de carácter racista tiveram origem nos dois séculos anteriores e apesar de serem poucas e terem tido adoção diminuta no início, por vezes esta tendo acontecido muito depois de a ideia original ter sido criada, acabaram a alastrar radicalmente e a justificar indiretamente algumas das maiores atrocidades na história humana.
Algumas destas ideologias ainda hoje são adotadas e promovidas, não apenas por aquilo que podemos apelidar de “grupos de ódio” mas por grupos perfeitamente normais e integrados na sociedade e que não se revêem nos seus elementos racistas.
Estas ideologias nasceram sempre de um contexto físico, social e económico, não apareceram por um rasgo de critividade artística de quem não tinha mais nada para fazer ou que inventava ideologia por carreira. Em regra, esse contexto não era favorável.
O ponto importante aqui é que a origem destas interpretações da realidade era uma realidade concreta, um estado de coisas.
Por exemplo, a crise económica na Alemanha imposta pelos termos humilhantes do Tratado de Versailles, ou a degradação do standard de vida imposto pela Revolução Industrial, ou os excessos reducionistas do positivismo científico do séc XIX.
Ou seja, não foram pessoas específicas que foram consideradas como causa dos problemas que as ideologias propuseram resolver.
Aqui entramos no ponto em que os elementos racistas foram introduzidos nessas ideologias.
Como o que estava em causa não eram meras incursões filosóficas ou escolásticas, mas realidades concretas, nenhum movimento com estas características faria sentido se não se preocupasse em transformar a realidade que lhe era desfavorável.
Mas atuar na realidade só podia ser feito atuando nos agentes que promoviam a mesma. Ou seja, o conflito com a realidade, para o continuar a ser, teria que ser com pessoas concretas que eram seus agentes de execução.
Mas mais uma vez, a preocupação inicial destes ideólogos não era com pessoas concretas mas sim com realidades concretas. O elemento racista foi introduzido pela necessidade de atuar contra essa realidade porque isso implicava necessariamente confrontar agentes específicos.
Em particular, foi a associação estabelecida entre pessoas concretas e a sua acção no mundo, ou seja, entre ideias específicas e as pessoas que as desenvolviam ou promoviam ou implementavam — associação a todos os títulos aberrante. Uma aberração lógica, ética e moral. E isso é o racismo nestas ideologias. É o pressuposto de que pessoas de determinada tipologia tendem a produzir determinado tipo de ideias ou ideossincrasias.
Mas transformar a realidade para melhor ou seja elevar o nível de vida, definir direitos dos trabalhadores e das partes derrotadas em conflitos, respeitar a natureza holística do ser humano, tudo isso seria sempre adotado por largas partes da sociedade sem reservas. E por isso é que estas ideologias tiveram larga adoção. Isso não aconteceu porque a maioria das pessoas nas sociedades da época se tornaram racistas radicais em poucos meses ou anos.
O racismo foi (e ainda é) a associação entre a produção de ideias e grupos étnicos ou culturais de pessoas. Mais do que isso, nem sequer se tratava das ideias em si mas da sua consequência no mundo real. Ou seja, e aqui retomamos os axiomas iniciais: o problema central foi a perceção de que numa realidade que não é arbitrária, algumas ideias são necessarimente superiores a outras.
Posto de outra forma, o problema original nunca foi pessoas serem superiores ou inferiores entre si pelas caracteríticas dessas pessoas, nem sequer pelas suas ideias, mas sim o facto de diferentes ideias ou visões do mundo terem impacto diferente na realidade concreta.
Isto advém necessariamente dos axiomas referidos: numa realidade que obedece a leis de algum tipo, umas ideias sobre a realidade vão produzir melhores resultados do que outras.
Ou seja, mesmo que o desejássemos negar, existe uma hierarquia entre visões do mundo. É uma hierarquia que é dependente do contexto e mutável, local e não universal (felizmente), mas o ponto central é:
Numa realidade concreta, algumas visões do mundo são superiores a outras seja lá qual for o standard com que as avaliemos, pelo simples motivo de a realidade não ser nunca abritrária.
E isto acontece independentemente de não podermos generalizar esta “localidade” ao ponto de estabelecermos uma hirarquia universal de ideias — o ideal racista, quando essas ideias são associadas a pessoas específicas.
A tese que aqui defendo é a de que o elemento racista foi uma aberração, um abuso, induzido por uma interpretação de uma realidade inegável: a hierarquia de ideias no mundo real.
Não existem pessoas que devem sobrepujar outras pessoas por virtude de características biológicas (a crença racista), mas existem ideias que devem sobrepor-se a outras ideias quando o que está em causa é a sua aplicação no mundo real.
O maior exemplo disto mesmo é a Carta Universal dos Direitos Humanos e a existência de um Tribunal Penal Internacional. Em geral qualquer sistema legislativo nas sociedades modernas.
Nós somos livres de acreditarmos no que quisermos, mas quando está em causa exercer a crença no mundo real, temos que nos confrontar com uma hierarquia.
O erro que foi cometido em vários movimentos ideológicos com elementos racistas foi transpor uma hierarquia de ideias no mundo para uma hierarquia dos seus agentes no mundo ou seja de pessoas. Mas isso foi um abuso que originou o racismo, não uma invalidação da hierarquia de ideias que está estalecida nos axiomas iniciais.
Em qualquer contexto físico, umas ideias são necessariamente superiores a outras.
Não existe uma hierarquia de pessoas ou de raças. Mas existe uma hierarquia das ideias.
Imagens:
Rudolf Steiner (Meisterdrucke), filósofo austríaco criador do movimento antroposófico.
Houston Stewart Chamberlain (Arquivo Federal Alemão), autor do livro “Fundações do Século XIX” que foi a base da ideolodia nationalista alemã da qual derivou o nazismo.