O sistema das baratas não existe porque as baratas são competentes, e o seu número não significa que as baratas são individualmente bem sucedidas.
Mário Vicente
A tese que aqui apresento foi motivada por um episódio com um insecto voador que de todo não me suscita a repulsa que tenho por certos perfis, mas para melhor transmitir esta emoção irei utilizar um “isomorfismo” para o caso das baratas domésticas.
Aquele inseto, pelo padrão de cor das suas asas, deve passar o tempo pousado em troncos de árvore, mas por qualquer motivo fui dar com ele numa das paredes de azulejo da minha casa.
Como este animal não tem carácter infestante nem prejudica a saúde, decidi interagir com ele de forma a poupá-lo porque o que eu ia fazer era incompatível com a sua presença naquele local específico.
Ora a resposta do inseto foi colocar-se diretamente na situação que eu queria evitar, e o fim da sua história foi o equivalente.
Isto levou-me a pensar em várias das ramificações deste evento, que a partir daqui vou discutir em termos de baratas.
A primeira questão é obviamente porque é que o animal fez algo tão estúpido e inconsequente?
A resposta é igualmente óbvia, as baratas não são capazes de mais do que isto: uma ação por impulso, quase aleatória, sem planeamento, sem cognição e mesmo com a pouca perceção sensorial que têm a não ser capaz de tomar uma decisão extremamente impactante e extremamente simples.
Isto levou-me a outra questão: como é que um animal tão incapaz e ridículo como uma barata consegue sequer sobreviver?
Mais ainda, em geral, como é que existe ainda tal coisa? Como é que subsiste? Isto parece trivial mas não é, porque o que seria trivial seriam as infinitas formas de um ser vivo como este se extinguir num mundo exponencialmente mais complexo do que esse ser pode inteligir.
Continuei a tentar perceber isto.
A resposta não demorou muito: as baratas só existem porque conseguem sobreviver e desenvolver capacidade de se reproduzir a tempo de estatisticamente serem obliteradas pela complexidade do mundo em que vivem.
E isto leva ao ponto central da questão.
O sistema das baratas é capaz de se auto-sustentar, isso é a única evidência e o único mérito desse sistema.
O sistema das baratas não existe porque as baratas são competentes e o seu número não significa que as baratas são individualmente bem sucedidas.
O facto de existirem baratas não nos permite afirmar que o standard das baratas é um standard que devemos adotar.
Não nos diz nada sobre o quão elevado é o standard das baratas.
Porque à luz de outros standards, o das baratas é medíocre e repugnante.
O que nós líderes podemos aprender com as baratas, é que o facto de sermos muitos e simplesmente conseguirmos andar para aqui a fazer aquilo que no nosso standard de baratas chamamos “liderar”, isso não diz nada sobre o nosso standard e nem pode justificar sequer recomendá-lo.
Para uma barata deixar de se comportar como uma barata, teria que ser capaz de inteligir um standard não apenas diferente do seu, mas superior.
A existência de outras baratas à sua volta, a fazer o mesmo que ela faz, e o seu número, não interfere em nada nesta realidade.
O facto de montarmos esquemas nos quais conseguimos simplesmente andar para aqui a fazer o que fazemos, não nos permite justificar o sistema que construímos e que mantemos. Portanto, também não nos legitima como atores nesse sistema.
Isto proporciona uma explicação científica para a constatação que eu formulei como a 1ª Lei Universal: o standard é sempre definido pelos atores menos competentes.
O Scrum ainda existe simplesmente porque as pessoas conseguem desligar o cérebro e executá-lo, e porque é facilmente reprodutível. Tal como as baratas infestantes. Não porque funciona ou porque é eficiente e não é por isso que é recomendável. Porque a coisa mais fácil que existe é desmontá-lo por completo. Tal como esmagar uma barata. O seu único mérito é ser um esquema auto-sustentado.
A pressa típica de muitos “líderes” em fazer as coisas acontecer e os objetivos serem atingidos deve ser um mecanismo análogo a aquele que permite às baratas existir como sistema: tudo tem que ser feito depressa e ter consequências antes de ser obliterado por qualquer coisa que lhe é superior. Porque isso é praticamente certo que vai acabar por acontecer.
Um líder que cria um sistema no qual a velocidade de execução é premiada, está a infestar a organização de baratas e o resultado é um standard de sarjeta — ainda que o esquema seja resiliente o suficiente para se auto-sustentar. Em particular, se as pessoas que tomam decisões não sentem o impacto das suas decisões a infestação é garantida.