
A Ana acabou de obter o mestrado.
A Ana esteve os últimos 5 anos a estudar Psicologia.
A Ana tem tantas qualificações fora da Psicologia como eu que sou analista de negócio.
Se eu disser o contrário à Ana (premissa), o que lhe estou a dizer é que o que ela esteve 5 anos a fazer numa faculdade é-me completamente irrelevante. Esteve a tratar de Psicologia como podia ter estado a tratar de Engenharia do Papel, que para mim seria exatamente o mesmo. Com o mesmo critério também podia ter estado a fazer rigorosamente nada durante 5 anos porque para o efeito “qualquer coisa” e “nada” têm a mesma aplicabilidade.
Ou seja, estou a dizer à Ana que ela não tem quaisquer qualificações reais fora da Psicologia. Se isto é verdade, então a premissa é falsa, e vice-versa.
Eu conheci o André no open space de uma consultora IT.
O André tinha acabado de sair da sua faculdade onde se licenciou em Engenharia Química e estava a fazer uma formação em RPA (robot process automation) dada pela consultora.
O André ia começar a exercer a função de programador RPA. Naturalmente, essa formação apenas lhe garantia os mínimos para começar a exercer pelo que na realidade a formação do André iria ser on-the-job nos próximos meses ou mesmo anos, dependendo do tipo de desafios que lhe viessem a ser colocados. A única razão pela qual o André estava a ter formação era por não ter à data as competências requeridas para a função.
Por definição, no lugar do André podia estar a Ana ou a Marta ou o Gustavo.
Por definição, o André podia ter qualificações em Matemática, Jornalismo ou Medicina Tradicional Chinesa.
Uma função que pode ser desempenhada por uma pessoa com qualificação em qualquer área é por definição uma função não qualificada. Porque é uma função sem vínculo à qualificação da pessoa.
Logo, o André exerce uma função não qualificada, para a qual portanto as qualificações dos candidatos são irrelevantes.
A Mariana formou-se em Direito e trabalha como jurista na sua entidade empregadora (ou seja atua como advogada do empregador). A Mariana desempenha portanto uma função qualificada.
A conclusão óbvia é que é absolutamente inconsequente considerar as qualificações dos recursos sem considerar a área a que essas qualificações dizem respeito.
O especialista é por definição a pessoa que exerce uma função qualificada. Os restantes (generalistas) são perfis não qualificados. Precisamente porque nós não podíamos estar menos preocupados com em que é que eles se qualificaram exatamente ou sequer se se qualificaram.
Eu estudo violino há mais de 7 anos. Violinista é uma função qualificada.
Se por acaso estão a pensar «Ah mas o que a Ana esteve 5 anos a fazer na faculdade é importante porque pode ter desenvolvido ‘transferable skills’.» eu digo exatamente. Concordo. Mas isso concorda com o que está escrito acima porque é outra forma de dizer que a qualificação académica da Ana só por si, sem considerar o currículo académico, não nos diz nada sobre a aptidão dela para funções fora da Psicologia. Tal como o facto de o André ser licenciado em Engenharia Química dizer nada sobre a aptidão para programar RPA. Ou seja, é o currículo académico e não a qualificação que nos interessa, para temas fora da Psicologia. O Mestrado da Ana não nos permite só por si afirmar que ela está qualificada para o que quer que não seja exercer Psicologia. Eu só posso afirmar o contrário disto se desconsiderar por completo o que ela esteve 5 anos a fazer (porque ela não pode ter estado 5 anos a preparar-se para tudo), caso em que ainda por cima vou deixar de a poder comparar com outros candidatos à mesma função, porque passam todos a ser igualmente “aptos” o que não faz qualquer sentido porque é contrário ao meu objetivo de aferir a aptidão da Ana fora da Psicologia.
Quanto mais elevado o grau académico, mais importante se torna saber tudo isto. Porque como toda gente já sabe, a carreira académica é uma especialização gradual, não é uma generalização. Um doutorado especializou-se ainda mais numa área científica concreta do que um mestrado, e este do que um licenciado. Um doutorado em inteligência artificial tem tantas qualificações como um licenciado em engenharia informática para administração de sistemas informáticos. Mas se falarmos de reconhecimento facial ou interfaces homem-máquina, já é o contrário. E se falarmos de psicologia, estão exatamente ao mesmo nível que é “inapto”.
Mais uma vez, o diferenciador é o currículo e não a qualificação, que só tende a ter aplicação mais restrita quanto maior for o seu nível. Mais uma vez, desconsiderar o que as pessoas estiveram a fazer durante vários anos no seu percurso académico é contrário a todos os objetivos da indústria.