Compromisso

Depois de, nos últimos artigos, me ter dedicado a clarificar alguns dos mitos prevalecentes na indústria, a saber

  • o Mito da Velocidade
  • o Mito da Qualidade
  • o Mito da Equipa

venho desta vez aportar valor com mais uma contribuição para clarificar

o Mito do Compromisso


Tenho que, por respeito para com o leitor, avisar que vou abordar um tema sensível que pode desencadear o reflexo de auto-preservação da integridade mental com resultados desagradáveis nos espíritos mais sensíveis e eventualmente doutrinados numa metodologia de raciocínio diferente.
Mas felizmente que vou começar por clarificar quais são as minhas credenciais para tratar deste assunto. Se deixar o leitor agastado, pelo menos não será por qualquer motivo a que me aprouve dar azo. O leitor agastado também pode recorrer ao exercício catártico da caixa de comentários.

Em primeiro lugar, sou um ser humano racional. Esta afirmação é de realçar sobretudo tendo em conta a inestimável contribuição do Dr. Darwin com a sua Teoria da Evolução. Nesse modelo conceptual, o que as pessoas são hoje advém de milhões de anos de evolução dolorosa, feita à custa de incontáveis sacrifícios, esforços e mortes, num meio constantemente desafiador e em competição com muitos outros seres vivos.
Mais ainda, o que somos hoje é tudo menos aleatório — é literalmente o que temos que ser. Isto porque hoje descendemos dos indivíduos que foram previamente seleccionados positivamente com a possibilidade de transmitirem as suas características às gerações seguintes.
Neste modelo, temos que admitir que qualquer coisa diferente do ser humano que hoje conhecemos, seria necessariamente uma segunda categoria de ser humano, algo menos apto para existir no mundo que conhecemos (reclamem ao Dr Darwin sobre isto).

Em segundo lugar, tenho mais de 12 anos de experiência em projectos. Esta experiência, é importante ressalvar, não foi toda adquirida na mesma organização, muito pelo contrário. O que significa que, a perspectiva que tenho tem a contribuição de várias formas que conheci de ver e de fazer as coisas, de várias pessoas, de várias lideranças, de várias culturas organizacionais.
E, em virtude disso e da primeira credencial, quando abordo estes assuntos não me refiro necessariamente à minha experiência na organização A ou B, nem sequer necessariamente à minha experiência particular em qualquer organização.
Em particular, esta experiência inclui organizações únicas na sua cultura, finalidades, metodologias e âmbito de acção. O que acrescenta mais uma dimensão à capacidade de análise das outras organizações e metodologias.

Em terceiro lugar, a minha formação não foi feita apenas numa área específica, muito pelo contrário, e por isso a análise beneficia de outras tantas dimensões que lhe dão perspectiva. Vai perceber melhor o que é que isto significa mais adiante.

Depois desta introdução, passemos então à parte melindrosa.
Tomemos o primeiro exemplo. Eu peço ao leitor o seu Compromisso para com a seguinte missiva (1):

A família de subgrupos de um grupo G, parcialmente ordenada por inclusão de conjuntos, forma uma grelha.


Se a pessoa a quem eu peço este compromisso, for irresponsável, dar-me-á o seu compromisso sabendo ou não do que se trata aqui.
Se eu for irresponsável, vou pedir o seu compromisso sem querer saber se ela sabe ou não do que se trata. O que é o mesmo que dizer, vou assumir sem questionar que ela sabe.
Se eu for responsável, e me for pedido a mim este compromisso, tenho que me assegurar de que sei o que é um grupo, o que é um subgrupo, o que é a inclusão de conjuntos, o que é um conjunto ordenado, o que é uma grelha neste contexto (não é onde se assam as febras).
Se eu for responsável, e for eu a pedir este compromisso, tenho que me assegurar que quem me responde sabe isto.
Assumimos agora que a pessoa a quem é pedido este compromisso não sabe todas estas coisas. Por isso, e porque é responsável, juntamente com o seu compromisso, dá como garantia do mesmo, que depende da pessoa A para tratar da definição de Grupo. É a essa pessoa que vai ser imputada essa clarificação ou dependência para o sucesso deste compromisso. Nas organizações complexas de hoje muito poucas coisas dependem apenas de uma pessoa.
Porque eu, que peço este compromisso, sou também responsável, juntamente com o compromisso pedi também essa garantia.
Perguntaria o leitor, ingenuamente,
— Então mas sendo assim porque é que se pedem e se assumem compromissos sem garantias, com todas as consequências que daí advêm para as organizações?
Esta é a parte em que a formação em várias áreas permite responder com facilidade.

Em primeiro lugar, esta questão tem tudo a ver com o facto de termos pessoas nesta máquina que é a organização.
Nas Engenharias, aquele ramo aplicado da ciência que visa a construção e operação de máquinas e estruturas de acordo com os padrões comprovados e imutáveis típicos das coisas mecanicistas na sua constituição (2), há crença natural de que, montando uma qualquer estrutura de acordo com esses padrões, independentemente da sua constituição, o seu comportamento terá as mesmas características de uma máquina — será constante, previsível, configurável da mesma forma. Obviamente que isto viola o preceito (2), porque as pessoas não são mecânicas, mas nunca é demais lembrar que isto acontece muitas vezes independentemente do quão absurdo e incoerente em si mesmo seja.

Em segundo lugar, quem pede o compromisso sem garantias é alguém que à partida estará motivado previamente para o fazer. Essa motivação tem que ser de tal ordem, que o requerente se sinta autorizado a correr quaisquer riscos com compromissos irresponsáveis. Não é difícil, para quem tem o mínimo de experiência em projectos, encontrar N razões que possam conferir a esta pessoa a (falsa) sensação de que está a proceder correctamente. Eu não vou detalhar esse ponto para não correr o risco de agastar ainda mais os leitores mais sensíveis. Fica apenas a noção de que aqui é o ponto complicado onde podem surgir os chamados commitment creeps que são na verdade ingerências disfarçadas de compromissos.

Em terceiro lugar, há a perspectiva da pessoa que dá o seu compromisso de forma irresponsável. Esta pessoa 

  • tem acesso a informação?
  • tem capacidade de a interpretar?
  • tem condições para a obter?
  • tem necessidades de aprovação?
  • tem recursos para lidar com a frustração?


Isto pode chegar o ponto de se dever saber se esta pessoa fez o luto das suas figuras parentais na altura própria do seu desenvolvimento psicossocial, em linha da teoria de Freud. Porquê? Porque se o não fez, ainda existirá na mente dessa pessoa alguma figura externa de autoridade com o poder suficiente sobre o Ego para i) ser extremamente difícil contrariar influências por parte dessa pessoa por mínimas que possam ser, e ii) a necessidade de obter a aprovação dessa figura substituta parental será essencial à manutenção da estabilidade da própria personalidade da pessoa.
A capacidade de lidar com a frustração, dita muito do que fazemos desde logo para a evitar, e dita muito das consequências que ela tem para nós, por esse motivo este critério é recorrente nos assessments de saúde mental feitos pelos profissionais de saúde.
Felizmente que na minha formação fui introduzido às questões com que lidam a Psicologia, a Sociologia, a Saúde Mental e a Psiquiatria. Assim o leitor pode ficar mais descansado que eu não tive a ideia deste artigo num questionário de leitores de revista de cordel (ria-se, estou a tentar ser engraçado).

Tomemos o segundo exemplo. Eu e o leitor assumimos que o seguinte é válido [1]:

Seja _r um natural primo com _m, e _s o inverso de _r em módulo _m.
Para qualquer inteiro _a, se _b é congruente com _a^_r módulo _n, então _b^_s é congruente com _a módulo _n.

As letras que denotam variáveis estão estão precedidas por _.
Toda a encriptação de chave pública que utilizamos assenta neste princípio — que é muito pouco prático obter a chave que permite decriptar uma mensagem a partir da chave pública que foi utilizada para a encriptar. Numa altura em que alguém o conseguisse fazer, já a informação que foi descodificada estaria obsoleta.
Agora assumimos que afinal esta afirmação se baseia em pressupostos falsos. Assim, esta afirmação será também inválida.
Logo, teremos que assumir que todas as informações que trocámos supostamente de forma segura afinal estiveram sempre vulneráveis.
Logo, vamos ter que rever o compromisso que assumimos face à nova realidade. Não podemos continuar a acreditar que aquela afirmação é verdadeira. Não queremos continuar a fornecer informações a quem não queremos as tenha (este exemplo foi escolhido por ser tão óbvio).
O leitor dirá
— Mas que chatice, então isso quer dizer que não se pode assumir compromissos ou pedi-los?
Pode, desde que sejam acompanhados das garantias associadas.
— Mas então estamos sempre sujeitos a descobrir que aquilo que assumimos afinal não era verdade?
Claro, benvindos ao mundo real, aquele que não existe nos manuais de Engenharia, mas com o qual os de Matemática e de Saúde já lidam desde sempre e muito bem.

Mais uma vez, as Forças Armadas dão o exemplo sensato nesta matéria, por contraponto às organizações civis, ao pedir o compromisso aos militares (Juramento) somente depois da sua formação inicial. Isso significa que os militares dão o seu compromisso quando efectivamente estão aptos a tal, o que apenas para as mentalidades tacanhas não clarifica de forma clara de onde é que vem a validade desse compromisso em primeiro lugar.
Mas há um outro exemplo de sabedoria, bom senso e inteligência. No Novo Testamento, o compromisso assumido no Baptismo, importante como é, assenta na garantia de que a pessoa o faça voluntária e conscientemente, creia e se arrependa dos seus pecados (Actos dos Apóstolos 2:38). Mas, claro, tal como muitas pessoas não sabem isto quando baptizam bebés (acto de relevo social e espiritual, mas não com a finalidade de baptismo que é a remissão dos pecados), também nas organizações essas pessoas se satisfazem com compromissos pueris. Só muda a idade física já que a mental tem que ser por definição igual, como espero já ter clarificado.
Mas note — se falho em algo no meu raciocínio, ou no meu sentir (como preferir), por favor corrija-me porque não quero estar enganado a respeito de temas temas tão importantes. E nem tão pouco quero enganar alguém.

Por último, o leitor acabou de descobrir a eventualmente principal razão pela qual as organizações necessitam de gestores.
Também fica mais clara a importância da multidisciplinariedade na vida vida saudável das organizações.
Agora multipliquem estes dilemas por N no caso dos compromissos que se pede a equipas em vez de a uma pessoa individualmente, revejam o artigo sobre o mito da Equipa, e vão perceber melhor de onde vem grande parte dos problemas nos projectos.
Simples, não é?


[1] “Algebra – Abstract and Concrete”, Frederick Goodman, Semi-simple Press.

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Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn em 11 de Dezembro de 2018