Gostava de partilhar uma posição que tenho baseada na minha experiência militar. Não sou a maior autoridade na matéria nem sequer tive uma experiência diferente da norma nem nunca estive em teatro de operações.
De tanto nos focarmos em Doutrinas, Metodologias & Processos, Grupos & Equipas, há um risco de não nos focarmos tanto nas pessoas em si, até porque a aplicação de uma ideologia é sempre um universo à parte que a separa da prática. E a realidade com que cada pessoa tem que lidar nenhuma doutrina pode prever com exactidão. Nem todos percebem da mesma forma uma visão que lhes seja apresentada.
Na carreira militar, uma das primeiras coisas que se pede aos profissionais em formação, é que mobilizem os seus recursos individuais para ultrapassar os obstáculos. Na Instrução Básica (a “recruta”), ao contrário do que de fora da organização se possa pensar, não é apenas o trabalho de equipa que está em jogo.
Na verdade, dissecando sem pudor nem romantismos o processo, os militares são por natureza contribuidores de grupo na sua organização porque todos eles sem excepção a primeira coisa que fizeram foi desbloquear o primeiro obstáculo de todos numa organização que é o que cada um se coloca a si mesmo na acção (as suas limitações percebidas e reais). Tudo o resto é construído a partir daí.
O trabalho em equipa, na organização militar, assenta nessa capacidade e disponibilidade individual. Não em doutrinas, nem em regulamentos, nem em processos, por si mesmos. Não se trabalha em equipa porque isso vem no título da newsletter, “porque tem que ser”, nem “porque gostamos” ou porque “achamos que sim”, mas porque se está desimpedido individualmente para contribuir para o grupo.
Não é o grupo que se manifesta no indivíduo, mas o contrário.
Também não se trabalha em Equipa porque se é uma Equipa. Este tipo de raciocínio tautológico é de esperar encontrar apenas nos níveis mais básicos de ensino.
As pessoas ficam aptas a trabalhar em equipa depois desse trabalho e desafio individual. Aí é que se assentam as sinergias de grupo. Nessa fase inicial, o processo é executado em grupo sobretudo para uniformizar essa transformação que é individual, mas não porque ela nasce da dependência do grupo.
O que na minha opinião fazemos muito, nas organizações, é tentar chegar ao mesmo resultado mas ao contrário, ou seja,
Começando pela doutrina ou processo com a esperança de que no fim de uma cadeia feliz de coincidências ou de esforços concentrados, aumente a resiliência e a capacidade individual para contribuir para uma equipa.
E esperando, claro, que os métodos e processos tenham a mesma influência em cada um, apesar de todos serem diferentes. Fazemos isso logo desde a nossa formação académica.
Esta contribuição para a equipa pode ser facilitada pela adaptação do meio envolvente a cada indivíduo, ou pela adaptação do indivíduo. Penso que clarifiquei aqui qual das abordagens é mais eficiente e produz as equipas de maior performance — a mobilização e capacitação individual, como antecedentes das sinergias de uma equipa. Este aspecto relaciona-se com o tema da segurança psicológica (psychological safety), que é muito associado à performance das equipas. Também quis aqui clarificar que, ainda que possamos construir um meio ambiente propício à segurança, visto que i) as pessoas têm necessidades e perfis diferentes entre si, e ii) a segurança psicológica de cada um é um factor interno à própria pessoa, temos que concluir que adaptar o meio envolvente é menos eficiente e reduz as possibilidades de gerar sinergias e de adaptação das equipas à realidade disruptiva e mutável de hoje, a par da desnecessária uniformização dos perfis das pessoas. Adaptar o meio implicar normalizá-lo, regulamentá-lo cada vez mais excessivamente.
Devemos questionar se efectivamente nos podemos sentir seguros numa equipa sem que para tal tenhamos que modificar algo em nós mesmos, e foi também a pensar neste aspecto que escolhi o exemplo do perfil psicológico dos alunos ingleses dos Combined Cadet Forces para ilustrar este artigo.
Infelizmente ainda há práticas alienantes nas organizações, que bloqueiam a iniciativa individual e a interacção, e por conseguinte o desempenho do grupo. Também muitas promovem dependências excessivas que espartilham a livre colaboratividade e a iniciativa que são essenciais.
Dizemos muitas vezes “Somos uma equipa”, montamos um processo, e depois é que procuramos funcionar como tal. Acontece que termos a crença ou convencionarmos que pertencemos a um grupo, por si só, não nos desbloqueia e nos torna contribuidores para a equipa. O aspecto emocional também não garante isso pois somos todos diferentes nesse aspecto e nas nossas motivações.
A capacitação individual é a base de tudo o resto, que é montado em cima disso. A pirâmide de qualquer equipa assenta sobre a capacidade e a iniciativa individual. Sem isso podem dividir-se tarefas, como num mero grupo, mas nunca gerar sinergias que é o que define o produto de uma equipa.
Não pretendo dizer qual a melhor abordagem, e a minha percepção é em parte pessoal, apenas convido a reflectir sobre isso. Pelo menos na organização militar, o processo é muito eficiente, enquanto na civil claramente não o é.
Quando nos mentalizarmos de que, se somos iguais em alguma coisa, é em sermos cada um de nós uma “unidade” na Álgebra Humana, aí é que vamos começar a ser capazes de contar, somar, dividir e… Multiplicar.
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Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn em 21 de Novembro de 2018.
Imagem: Tour Scotland photograph of Army Cadets on the march at Armed Forces Day in Perth, Scotland.