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Para perceber como é que uma política de pleno emprego pode coexistir com uma indústria automatizada, basta perceber em que é que aquela lhe pode ser útil.
No livro “Bullshit Jobs”, David Graeber fornece uma explicação a partir dos dados que recolheu. A interpretação aqui é minha, porque para já o que li da tese dele limita-se a constatar os factos em que me baseio. Mas acredito que ele irá chegar a esta conclusão, directa ou indirectamente.
Ter pessoas com valor político na organização, pessoas alienadas acerca da organização em que se inserem, pessoas que desconhecem qualquer racional a respeito dos processos que seguem, pessoas castradas ao ponto de perderem qualquer agência própria no local de trabalho, etc, apesar de contradizer todos os pressupostos de uma economia de mercado e em particular da iniciativa e gestão privada, é útil à organização fortemente automatizada. Porque é um layer de alienação adicional dos clientes relativamente aos mecanismos automáticos que regulam a actividade da organização. Dá uma cara humana a processos não humanos. Dá a ilusão de haver agência humana. Promove o score social da organização contando que ela desenvolva as métricas certas para ser socialmente percebida como útil e relevante (programas de caridade, mindfullness, redes sociais fofinhas, etc).
Nunca será mais fácil desenvolver automação do que isto.
E eu tenho a experiência que comprova a tese. Foi preciso dissecar o processo de atribuição de crédito de um dado banco, durante uma reunião presencial e dez iterações não presenciais, para finalmente ter um gerente a dizer-me que um dos componentes da decisão do banco é um score atribuído por um sistema de informação. E mesmo este gerente disse-me que, não sendo informático, não sabia nada a respeito desse sistema. Ao que obviamente lhe respondi que, tratando-se de informação de negócio, não se admite outra alternativa a não ser saber o que esse sistema faz e como o faz.